Silenciar-se sobre os 60 anos do golpe militar é seguir no erro da história
- Cristiano de França

- 31 de mar. de 2024
- 2 min de leitura

Por Cristiano de França (Sociólogo e Educador Popular)
Nasci em 1972, quando o tal do “milagre brasileiro” estava no seu apogeu. Nasci entre a guerrilha rural do Vale Ribeira, em São Paulo, que ocorreu em 1970, comandada pelo capitão Carlos Lamarca e a guerrilha do Araguaia (1970-1975), esta promovida pelos militantes do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), no norte de Goiás. Nasci na ditadura.
Cresci no interior nordestino e nada ouvi falar sobre ditadura em todo meu período escolar até o final da década de 1980. Tive uma infância “protegida” de tudo que acontecia naquele período no meu país. Recordo que só passei a conhecer sobre este período, no movimento estudantil, por meio da história do estudante Edson Luís que foi assassinado pela ditadura em 1968. Foi esta história, para mim, o descortinar de uma realidade escondida até então.
Não conseguia perceber como que tantos horrores, violações de direitos humanos, mortes, opressão sucederam ao meu redor e eu não sabia, não ouvia nada… Um dia perguntei aos meus pais se eles não sabiam, não ouviam sobre o que acontecera neste período. Meu pai, na humildade de um homem que provia sua família e cuidava dela, respondeu que ouvia pouco sobre estas histórias que aconteciam em São Paulo. O que me levou, na época, ainda muito jovem, a imaginar o quanto que a ditadura soube criar um hiato entre a realidade do interior do país e os polos de luta e revolução contra ela. Pois, enquanto eu levava uma infância feliz, crianças ficavam órfãos por conta da ditadura, jovens eram presos e torturados… Eu vivia em um outro Brasil.
Adulto, tenho uma compreensão histórica desse triste período. Tenho uma leitura e reflexão que ao afirmar que nasci na ditadura, não posso refutar meu compromisso de levar para adolescentes e jovens esta parte da história brasileira para não corremos o risco de repeti-la.
Confesso que, como muitos brasileiros e muitas brasileiras, fiquei chocado ao saber que o governo Lula determinou o cancelamento dos atos em comemoração aos 60 anos do golpe militar. A nossa história é feita de avanços e retrocessos, como seres históricos não podemos deixar de simbolicamente celebrar momentos e atos que marcaram, e continuam marcando, a nossa vida enquanto nação. 60 anos após o golpe militar, ainda sentimos as suas sequelas no tecido social brasileiro. Não é silenciando a história ou jogando a sujeira para debaixo do tapete dela, que vamos reconstruir uma nova nação. Como historiador, não posso aceitar isto.
Só quando tive a oportunidade de conhecer o período histórico em que nasci, logrei entender a minha posição, o meu lugar, o meu fazer fazendo-se cidadão no Brasil. Ao desconhecer a nossa história, não sabemos para onde ir. Seremos lesados pelo personalismo que trataremos, erroneamente, de heroísmo. Silencia-se sobre os 60 anos
do golpe militar é negar a possibilidade de refazer a história, reinventar o Brasil de outro jeito; é retroalimentar os erros da história.




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