Ubuntu todos os dias: Reflexão!
- João Erivan

- 22 de jan.
- 2 min de leitura

Ser "um" com os "outros"
Ser um com os outros é um gesto cotidiano, antes mesmo de ser um conceito. A filosofia Ubuntu, centro deste coletivo, apresentada no livro "Ubuntu: todos os dias", nos lembra que ninguém se constrói isolado, que a vida só faz sentido na relação.
“Não posso ser plenamente eu se você não puder ser plenamente você.” - (Ngomane, Ubuntu: todos os dias)
Em textos anteriores, já questionei o individualismo filosófico que nos ensina a competir, acumular e vencer sozinhos, como se o outro fosse sempre obstáculo. Ubuntu surge como contraponto direto a essa lógica. Ele afirma que a existência é partilha e que a dignidade de um depende, inevitavelmente, da dignidade de todos.
Quando falamos de educação, essa reflexão se aprofunda, mas não se limita às salas de aula.
“Os saberes orgânicos nascem da vida, da experiência, da convivência e do território.”- (Nêgo Bispo)
A educação que defendemos não é mercadoria, não é prêmio, não é favor, é direito e prática social. (Por essa razão, o coletivo lamenta os cortes orçamentários nas universidades, o sucateamento das escolas, a banalização do ensino, o descaso governamental na preservação dos territórios dos povos originários, a não preservação física e histórica dos quilombos, etc.) mas este não é o foco da reflexão. Tenho por intenção dizer que a EDUCAÇÃO acontece na escola, mas não se limita a ela. Acontece também na rua, no transporte público, na conversa, no cuidado, no modo como nos relacionamos. Ensinar e aprender não são atos exclusivos de instituições; são movimentos diários, presentes na escuta, na troca e na convivência. Ubuntu nos ajuda a entender que todo espaço é espaço educativo quando há humanidade envolvida.
Pensar assim nos obriga a rever a lógica que transforma o saber em capital e o outro em concorrente. A educação, vista a partir do Ubuntu, rompe com a ideia de sucesso individual desconectado do coletivo.
“Viver Ubuntu é compreender que o sucesso individual só existe quando fortalece o coletivo.” - (Ngomane, Ubuntu: todos os dias)
Ela se torna ferramenta de transformação interna, porque nos humaniza, e externa, porque questiona estruturas que produzem exclusão. Ser educado, nesse sentido, não é apenas ter diploma, mas cultivar gentileza, empatia e responsabilidade social no cotidiano.
Por isso, Ubuntu não pertence apenas ao ambiente educacional formal. Ele pertence à vida.
Está na forma como tratamos quem está ao nosso lado, na maneira como compartilhamos o que sabemos, no compromisso de não deixar ninguém para trás. Ser um com os outros é reconhecer que a mudança começa em nós, mas nunca termina em nós. É entender que educar e ser educado é um ato contínuo, vivido todos os dias, nas ruas, nas relações e na construção coletiva de um mundo mais justo. “Ubuntu não é um ideal distante, é uma prática diária, feita de pequenos gestos de cuidado, escuta e responsabilidade.” - (Ngomane, Ubuntu: todos os dias)
Referências: NGOMANE, Mungi. Ubuntu: todos os dias. São Paulo: Editora Planeta, 2019.
SANTOS, Antônio Bispo dos. A terra dá, a terra quer. São Paulo: Ubu Editora, 2023.
FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996.



Comentários