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Individualismo Filosófico: Uma Ideia que está nos destruindo?

  • Foto do escritor: João Erivan
    João Erivan
  • 21 de nov. de 2025
  • 3 min de leitura
                                                                                                                  Por João Lima (Coletivo Ação Ubuntu)
Por João Lima (Coletivo Ação Ubuntu)



Este presente texto nasce de uma inquietação compartilhada: o individualismo que atravessa nossas relações e desmonta, pouco a pouco, nosso senso de coletividade. A reflexão surgiu de um diálogo vivo entre amigos do Coletivo Ação Ubuntu, onde percebemos que, mesmo falando tanto de comunidade, cuidado e afeto, estamos todos sendo sugados por um ritmo frenético que parece nunca desacelerar. Vivemos dentro de uma sociedade da produtividade, que exige pressa, desempenho e isolamento emocional como se isso fosse natural, e, sem perceber, viramos vítimas dessa lógica que rouba nosso tempo, nossa escuta e nossa capacidade de pertencer. Este ensaio é, portanto, um convite à pausa. Uma tentativa de olhar para nós mesmos, para os laços que estamos perdendo e para a urgência de reconstruir o “nós” em meio a um mundo que insiste no “eu”.



A gente anda vendo uma coisa estranha acontecendo por aí. Vivemos rodeados de gente, mas cada vez mais isolados por dentro, como se o sentimento de pertencimento tivesse se perdido no meio do caminho. Nossos vínculos ficaram frágeis, as conversas mais curtas, e a escuta verdadeira virou quase um luxo. Não é só “a vida moderna”é um jeito de viver que vem sendo empurrado pela lógica do capitalismo, que transforma tudo em corrida, produtividade e competição. E assim, devagar e silenciosamente, fomos nos afastando do “nós”.


“A sociedade do desempenho produz cansaço, solidão e depressão, pois transforma cada indivíduo em empresário de si mesmo.” — Byung-Chul Han, A Sociedade do Cansaço.

Hoje o “eu” virou rei, e a sociedade só reforça isso: seja independente, dê conta de tudo, prove seu valor, produza mais, sempre mais. A regra é “eu primeiro”, e o coletivo entra em cena só se sobrar tempo, e quase nunca sobra. A gente esquece que pertencer a algo maior é o que sustentou nossas comunidades por gerações. Quantas vezes você gritou por dentro e ninguém notou? E quantas vezes alguém ao seu lado fez o mesmo, e você nem percebeu? Parece que as relações foram trocadas por contratos frágeis, quase descartáveis. A empatia virou esforço, e o cuidado mútuo virou exceção.


Esse ritmo frenético que atravessa nosso dia a dia não nasceu do nada: ele é fruto de um sistema que exige velocidade, produtividade e autocontrole o tempo todo. Corremos atrás de metas, status e aprovação como se valesse nossa vida, e no meio disso esquecemos o essencial: ninguém vive bem sozinho. Mas o individualismo, alimentado pelo capitalismo, convenceu a gente de que solidão é força e vulnerabilidade é fraqueza. Resultado?


Estamos adoecendo, cercados de pessoas e, ao mesmo tempo, profundamente sozinhos. Falamos e não somos ouvidos. Sofremos e escondemos, porque quem teria tempo?


“Nenhum ser humano é capaz de encontrar satisfação completa na vida se permanecer isolado.” — Sigmund Freud, O Mal-Estar na Civilização.

Talvez o problema não esteja só no mundo acelerado lá fora, mas dentro de nós, na frieza que normalizamos, na pressa que engole nossa capacidade de sentir, na ausência de presença real. Quantas vezes deixamos de ser o colo que alguém precisava?


Quantas vezes cobramos atenção, mas negamos escuta? É hora de parar e refletir sobre quem estamos nos tornando. Porque sem laço, sem troca, sem pertencimento, ninguém permanece inteiro. E talvez reconstruir nossa humanidade comece com algo simples, quase esquecido no corre da vida: estar realmente presente para o outro e lembrar que só existimos porque existimos juntos.



“A verdadeira conexão só acontece quando permitimos que nossa humanidade seja vista.” — Brené Brown, A Coragem de Ser Imperfeito







Referências Bibliográfica:


HAN, Byung-Chul. A sociedade do cansaço. 6. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2017. 104 р.

FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização. Trad. Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. 160 p.

BROWN, Brené. A coragem de ser imperfeito: como aceitar a própria vulnerabilidade, vencer a vergonha e ousar ser quem você é. Trad. Ana Ban. Rio de Janeiro: Sextante, 2016. 224 р.

 
 
 

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