"Saudade: Um conto Literário"
- D. Lira

- 1 de dez. de 2025
- 3 min de leitura

Era uma vez uma garota que sempre olhava para frente. Muitos tentaram mover sua cabeça, médicos foram chamados, padres oraram, mas nada foi capaz de fazer a criança olhar para trás. Em seus olhos, não havia razão para olhar para trás, já que suas mãos apenas alcançavam o que estava à sua frente. Caso ela errasse, podia simplesmente girar seu pequeno corpo e pedir desculpas e, com as mãos, consertar o problema.
Já adulta, aquela que uma vez foi pequena se tornou grande, e grande se tornou seu corpo, suas mãos e os problemas que encontrava enquanto seguia em frente. Um dia, enquanto andava, encontrou um coelho paralisado no meio da estrada. Ele estava atrasado em muitas coisas e tinha muita pressa para resolver, mas não conseguia escolher o que fazer primeiro e como faria, o que o deixava paralisado, tremendo enquanto observava e ouvia o tilintar de seu relógio de bolso como um lembrete. A garota, decidida como ninguém, ajudou o coelho antes que o ponteiro menor ousasse girar. Mais calmo, o coelho se apresentou e contou sua história de vida, mas sempre que falava algo que parecia importante, ele olhava para trás, fazendo a garota ter que girar seu corpo todo por não conseguir mexer o pescoço. Irritada, a garota pediu para que o coelho parasse de olhar para trás, porque olhar para trás não permite que você use as mãos para mudar as coisas; olhar para trás não faz sentido.
Espantado, o coelho disse que sempre olhava para trás porque não conseguia encontrar o que já havia sentido e visto na frente dele. Então, sempre que se lembrava de algo, olhava para trás para poder ver. Por mais que suas patas não alcançassem, seus olhos e coração permitiam reviver o mesmo sentimento. Disse ele que aquilo era saudade. A mulher dizia não querer encontrar e ver nada que estava atrás dela, porque nunca quis reencontrar ou sentir a mesma coisa novamente. Seus olhos e coração sabiam que as coisas só podem ser diferentes quando estamos de frente.
O tempo criou uma forte amizade entre os dois, mas também fez seu trabalho. A jovem se tornou adulta e o coelho, que já era adulto, se tornou um idoso em seus tempos finais. Em sua última conversa, o coelho compartilhou com a mulher como, mesmo com seu relógio, não percebia que o tempo passava e suas ações não podiam ser mudadas, mas que havia aprendido a girar o corpo, pedir desculpas e resolver o problema. Mas não conseguia evitar olhar para trás.
Após sua partida, a mulher queria seu amigo de volta, mas não conseguia reviver nem sentir as memórias novamente. Como dizia seu falecido amigo, como uma criança ela pediu ajuda a todos para girar sua cabeça. O povo tentou, o médico examinou e o papa orou, mas nada foi feito. A mulher tentava girar seu corpo para poder ter um vislumbre do que estava atrás dela, mas ela estava sempre de frente.
Infeliz, caminhou pela mesma rua onde conheceu seu amigo, lamentando não poder olhar para trás. Em um momento, ouviu o mesmo barulho que fazia o tilintar do relógio do coelho. Como um instinto natural, a mulher virou seu pescoço, lembrando do seu amigo e dos conselhos que dava, lembrando de todas as coisas que fizera e não poderia mais fazer. Ali a mulher caiu sobre a estrada e desatinou a chorar como nunca. A garota nunca havia sentido algo assim, mas lembrou da tal saudade que o coelho dizia.


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