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"Além do capital: Na montanha de Sisifo"

  • Foto do escritor: D. Lira
    D. Lira
  • 16 de nov. de 2025
  • 3 min de leitura
                                                                                                                   D. Lira (Membro Coletivo Ação Ubuntu)
D. Lira (Membro Coletivo Ação Ubuntu)
“Em casa, após retornar de seu trabalho, ele se observou no espelho, lá não havia nada que ele deveria ser, ele não tinha dinheiro o bastante, corpo bom o bastante, trabalho bom o bastante, não tinha nada o bastante. Tal condição tornava o rapaz infeliz, não havia nada que lhe pudesse dar satisfação, ele observava ao seu redor todos ganhavam dinheiro o bastante, corpo bom o bastante, trabalho bom o bastante, enquanto isso ele não tinha nada para mostrar.”

A história, apesar de ficticia, advém do próprio retrato da sociedade atual, em que o capitalismo impregnou nossa vida e tornou o produzir e o consumir as ações morais da sociedade. Com o avanço tecnológico, essas duas diretrizes se propagaram e foram internalizadas com maior facilidade. Porém, se o capitalismo impregnou na ação moral humana, como eu poderia ir além dela? De acordo com Yves de La Taille, “um indivíduo somente agirá conforme princípios e regras morais (sejam quais forem) se essas fizerem, para ele, sentido no plano ético”. Assim se cabe analisar qual o plano ético da sociedade.


A solução para entender o que é ética é a própria questão da ética: “como viver uma boa vida?.


A “boa vida” do Capital é reproduzida de diversas formas. Está nas celebridades que divulgam uma vida perfeita de luxuosidade, nos coachs que vendem o segredo para o sucesso, nos cursos e vídeos que prometem soluções para problemas de nossas vidas. A vida perfeita que devemos alcançar é individual, competitiva e elitista (quando digo que é elitista, refiro-me as referências do que devem ser alcançado advém da elite, por exemplo, modelo de vida fitness e moda).


Porém, não nos tornamos apenas observadores passivos dessas ideias. Segundo Yves de la Taille, criamos uma verdadeira Sociedade do Espetáculo em que para sermos incluídos no mundo social, laboral e acadêmico necessitamos espetacularizar nossas vidas para sermos vistos em um sistema que se retro alimenta, já que o “a boa vida” do capital se altera com suas necessidades e nos adaptamos a ela.


Por isso, o garoto da história estava infeliz. Era impossível estar feliz em um mundo que condena a sua vida, mesmo sendo esse mundo que a definiu. Agora que compreendemos os motivos por trás da infelicidade desse garoto, quero convidar os/as leitores/as a uma leitura mais esperançosa, algo fundamental em tempos difíceis que sem ela, não poderíamos sonhar com um mundo melhor. Porém, precisamos falar do elefante no centro da sala: o que o garoto poderia fazer? Há milhares de filósofos e pensadores que possuem outras perspectivas diante desse questionamento. Mas, o que eu falaria?


-Revolte-se


Albert Camus, em seu livro o mito de Sísifo, discute sobre o absurdo da existência e nega um verdadeiro propósito para vida. Mas não no sentido em que todos deveriam desaparecer. Mas, em que não há um sentido universal para a humanidade, o sentido da vida é único e singular para todos. Diante do absurdo da existência, ele afirma que só temos três direções: o suicidio físico, o suicidio filosófico e a revolta.


Fica claro o porquê de minha resposta, não é? Em uma sociedade que impõe uma moral e ética superficiais e que só atende o produzir e o consumo, nunca seríamos capazes de alcançar a “boa vida". É como uma escada sem fim, um degrau que sobe, um degrau que se cria. A vida daquele garoto não irá mudar, enquanto estiver preso ao mesmo sistema. Mas seria utópico achar que abandonaremos nossos trabalhos e destruiremos o capital em um dia só. Talvez o garoto pudesse para de buscar o que o capital quer e, talvez, olhar para dentro e ver o que anseia e tenta alcançar. Caso Sísifo pare de sentir o solo em seus pés, o vento batendo em sua face, a luz do sol, a lua e as estrelas; se ele reconhece o sentido no que faz, Sísifo estará feliz.


Assim, devemos olhar para nós mesmos e se revoltar com a vida, revoltar-se com a ética e a moral, encontrar um sentido da vida que seja nosso e flua em nossas veias.


Caro leitor e cara leitora, permita-se ir além dos pensamentos e ideais do capital. Veja que além do individual existe o outro, além de um escritório há um parque, além do fim há um trajeto.





Referências


CAMUS, Albert. O mito de Sísifo. Rio de Janeiro: Record, 2010.

DE LA TAILLE, Yves. Moral e Ética: dimensões intelectuais e afetivas. Porto Alegre: Artmed, 2006.



 
 
 

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