Rerum Novarum: A Fome de Justiça
- João Erivan

- 13 de out. de 2025
- 3 min de leitura

O presente artigo, em formato de resenha, tem como propósito analisar a Rerum Novarum, encíclica publicada pelo Papa Leão XIII em 1891, reconhecida como um marco crítico na defesa dos trabalhadores e da dignidade humana. Surgida em meio às transformações profundas da Revolução Industrial, a obra se apresenta como uma resposta às injustiças sociais provocadas pela lógica do capital e pelo desequilíbrio entre o poder econômico e a condição do operário.
É importante destacar que esta análise não busca adotar uma linguagem religiosa, tão pouco dialogar diretamente com a dialética comunista. O foco está em compreender a Rerum Novarum como um texto social e político, que propõe uma reflexão sobre a justiça, o trabalho e o papel da educação na construção de uma sociedade mais humana e solidária.
Tem textos que não envelhecem. Mesmo escritos há mais de um século, continuam dizendo muito sobre o tempo em que a gente vive. A Rerum Novarum, de 1891, escrita pelo papa Leão XIII num momento em que o mundo via crescer as fábricas, as cidades e também a desigualdade. É um texto que fala, no fundo, sobre gente, sobre trabalho, dignidade e justiça.
Mas aqui, não vamos olhar para ela como um documento da Igreja. Vamos olhar como um grito social. Como uma carta aberta sobre o que é viver e sobreviver em um mundo que, muitas vezes, se esquece das pessoas.
“Os ricos e os patrões devem lembrar-se de que o trabalho dos pobres é a fonte das riquezas que possuem.” (Rerum Novarum, n. 20)
A Rerum Novarum nasceu num tempo em que a riqueza de poucos crescia à custa do cansaço de muitos. As jornadas de trabalho eram longas, os direitos quase não existiam, e a vida valia pouco diante das máquinas. No meio disso, o texto surge dizendo: o trabalhador não é só força de trabalho, é um ser humano, com valor, com família, com sonhos.
“O trabalho não deve ser considerado uma mercadoria; é, antes, uma atividade própria de um ser dotado de razão e de liberdade.” (Rerum Novarum, n. 15)
E é aqui que entra a educação. Porque sem educação, ninguém entende seu próprio valor. E sem entender seu valor, ninguém se organiza, ninguém muda o mundo. Leão XIII talvez não falasse em “educação popular” do jeito que a gente fala hoje, mas a ideia estava lá. O ser humano precisa ser formado por inteiro, com consciência, com dignidade e com oportunidades.
Se a gente trouxer essa conversa pra hoje, dá pra ver o quanto ainda temos uma fome de justiça. A fome de pão continua, mas junto dela há a fome de voz, de respeito, de escola de qualidade, de trabalho digno. E é aí que entram as políticas públicas, que deveriam existir pra garantir que ninguém fique pra trás. Educação, saúde, moradia e trabalho não são favores, são direitos que constroem uma sociedade mais justa.
A Rerum Novarum também ajuda a lembrar que educar é um ato político, e isso não tem nada a ver com partido. É político porque educar é ensinar a enxergar o outro, a reconhecer que ninguém vive bem num país onde tanta gente vive mal. É político porque transforma consciência em atitude, e atitude em mudança.
Ler esse texto hoje é perceber que ele não fala de altar, mas de chão. Fala das ruas, das escolas, dos campos, das fábricas. Fala do trabalhador e da trabalhadora que carregam o país nas costas. É uma convocação à solidariedade, àquela que não é caridade, mas compromisso com a justiça.
Talvez o grande recado da Rerum Novarum seja esse, enquanto houver gente com fome, a sociedade ainda não deu certo. Enquanto a educação for privilégio e não direito, ainda não há justiça.
“É da justiça que o Estado se preocupe com o bem de todos, especialmente dos mais pobres e desvalidos.” (Rerum Novarum, n. 29)
Por isso, o desafio é trazer o espírito desse texto pro nosso tempo. Pensar uma educação social e comunitária, feita de escuta, partilha e cuidado. Uma educação que ensine a gente a lutar junto, a não se calar diante da injustiça e a acreditar que todo ser humano merece viver com dignidade.
Essa é a verdadeira fome de justiça! Não a que se mata com um prato de comida, mas a que só se sacia quando todos têm o direito de viver plenamente.
Política pública não é favor, é direito; e educar é a mais profunda forma de transformar esse direito em consciência!
Referências Bibliográficas: LEÃO XIII. Rerum Novarum – Sobre a condição dos operários. 15 de maio de 1891.
CONFERÊNCIA DE PUEBLA (1979).




Parabéns Coletivo!