Pedagogia da Desobediência: Travestilizando a Educação como Ato Radical de Existência
- Gabriel Gomes

- 29 de set. de 2025
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Por Gabriel Gomes (Membro coletivo Ubuntu)
A educação, historicamente, foi concebida como instrumento de reprodução social e de manutenção das normas hegemônicas. O corpo escolar tornou-se espaço de disciplinarização e de adequação dos sujeitos a modelos eurocêntricos, coloniais e cisheteronormativos. Contra essa lógica, emerge a proposta de uma pedagogia da desobediência, que não apenas resiste, mas também propõe outros horizontes de existência e de conhecimento. Nesse sentido, travestilizar a educação é uma estratégia política e epistemológica que desloca o eixo normativo da escola e inscreve no processo educativo os corpos e saberes travestis como centros de produção de conhecimento e de reinvenção do mundo.
A desobediência como fundamento pedagógico
Paulo Freire já afirmava que “a educação é um ato político” (FREIRE, 1987). O gesto de ensinar e aprender nunca é neutro: ou se consolida a ordem dominante ou se abre espaço para a libertação. Nesse horizonte, a desobediência não deve ser lida como indisciplina, mas como ato consciente de romper com a naturalização das opressões.
Ao contrário de um simples protesto, trata-se de uma desobediência epistêmica (SANTOS, 2007), que questiona o monopólio dos saberes hegemônicos e propõe formas outras de existir, conhecer e viver. A educação, assim, desloca-se da tarefa de conformar para a tarefa de descolonizar.
Travestilizar a educação: corpos que ensinam
Travestilizar é mais do que incluir travestis na escola: é assumir a travestilidade como chave epistemológica. Judith Butler (1990) nos lembra que o gênero é performance, e Paul B. Preciado (2002) radicaliza ao afirmar que os corpos são “tecnologias vivas” que reprogramam os sistemas de poder. No Brasil, essa potência ganha força nas experiências travestis, que corporificam a resistência frente à violência cisnormativa.
A pedagogia travesti se ancora na memória da carne: corpos violentados que transformam dor em potência criativa; sujeitos historicamente relegados ao abjeto que agora se inscrevem como sujeitos epistêmicos centrais. Como nos alerta Sueli Carneiro (2005), é preciso deslocar o lugar do “outro” para o lugar de sujeito produtor de pensamento. Travestilizar a educação, portanto, é inscrever o corpo travesti como professora, mestra, filósofa, escritora, e não como objeto de análise ou exotização.
Desobediência, travestilidade e currículo
Ao travestilizar, o currículo deixa de ser linear, universalizante e excludente para tornar-se performático, híbrido e insurgente. Isso significa:
- Metodologia: incluir a performance, a oralidade, a estética como instrumentos legítimos de aprendizagem.
- Conteúdo: valorizar narrativas travestis, trans e queer, reconhecendo suas produções culturais e intelectuais.
- Política escolar: criar espaços que rompam com o dispositivo da tutela, que não “acolham” de modo paternalista, mas reconheçam a centralidade desses sujeitos no processo educativo.
bell hooks (1994) fala de uma “educação como prática da liberdade”, que só é possível quando há espaço para que os sujeitos vivam e expressem plenamente suas identidades. Travestilizar a educação é atualizar esse projeto freireano em chave queer-decolonial.
Educação como reinvenção radical
Nêgo Bispo (2019) fala de “contracolonização”: não basta resistir, é preciso propor mundos novos. Travestilizar a educação é exatamente isso: propor que a escola se torne lugar de reinvenção radical da vida, onde corpos não apenas sobrevivam, mas floresçam em suas diferenças. Trata-se de pensar uma educação que se desfaça de seu caráter disciplinar e se refaça como espaço de pluralidade e de insurgência.
Nesse processo, a travestilidade é pedagógica porque ensina a viver fora da norma, a resistir criativamente, a reinventar-se continuamente. A desobediência deixa de ser apenas ato de negação e torna-se ato de criação.
Conclusão
A Pedagogia da Desobediência é um chamado à insubmissão frente ao colonialismo, à cisheteronormatividade e à reprodução da violência nos espaços educativos. Travestilizar a educação significa deslocar o olhar: do corpo normatizado para o corpo-travesti; do currículo universalista para o currículo performático; da obediência à norma para a criação de mundos outros.
Assim, a educação deixa de ser mero dispositivo de controle e passa a ser espaço de radicalidade existencial. Como diz Luma Andrade (2012), “nossos corpos são nossas bibliotecas” e ao travestilizar a educação, aprendemos a ler, ouvir e aprender com esses corpos-bibliotecas, que carregam não só dor, mas também o poder de ensinar novos modos de vida.
Referências
BUTLER, Judith. Gender Trouble. 1990.
CARNEIRO, Sueli. A construção do outro como não-ser. 2005.
FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. 1987.
HOOKS, bell. Teaching to Transgress. 1994.
PRECIADO, Paul B. Manifesto contrassexual. 2002.
SANTOS, Boaventura de Sousa. A crítica da razão indolente. 2007.
BISPO, Antônio. Colonização, quilombos, modos e significações. 2019.
ANDRADE, Luma. Travestis na escola. 2012.




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