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O TEMPO QUE NOS FALTA: POBREZA, TRABALHO E PERMANÊNCIA NAS UNIVERSIDADES PÚBLICAS BRASILEIRAS.

  • Foto do escritor: Gabriel Gomes
    Gabriel Gomes
  • 17 de out. de 2025
  • 6 min de leitura
                                                                                                               Por Gabriel Gomes Lima (Coletivo Ação Ubuntu)
Por Gabriel Gomes Lima (Coletivo Ação Ubuntu)

Este artigo busca analisar a permanência estudantil nas universidades públicas brasileiras a partir da categoria do tempo como recurso socialmente desigual. Argumenta-se que, para o estudante pobre, o tempo é uma dimensão da pobreza: sua ausência impede o estudo, a reflexão e a emancipação. A partir do diálogo entre Carolina Maria de Jesus, Milton Santos e Paulo Freire, examina-se como as desigualdades econômicas, espaciais e educacionais se entrelaçam na produção das “ cidadanias mutiladas” , conceito que expressa a contradição entre o direito formal de acesso e a impossibilidade material de permanência. Conclui-se que a efetiva democratização do ensino superior exige políticas públicas que restituam o tempo e a dignidade negados, garantindo a universidade como prática concreta de liberdade.


Palavras-chave: permanência estudantil; pobreza; tempo; cidadania mutilada; universidade pública.


O tempo como campo de disputa


O tempo, para o estudante pobre, não é apenas uma medida cronológica: é um campo de disputa social. Em um país como o Brasil, marcado por desigualdades históricas e estruturais, o tempo se converte em privilégio e sua escassez revela o abismo entre o discurso democrático das universidades públicas e a realidade excludente que nelas se reproduz. Se o acesso formal ao ensino superior foi ampliado nas últimas décadas, a permanência efetiva ainda se revela um desafio colossal, pois exige não apenas bolsas e auxílios, mas sobretudo a restituição de um tempo que a pobreza usurpa diariamente.


Nesse contexto, emerge o conceito de “ cidadanias mutiladas” , expressão que sintetiza a contradição entre o direito formal de acesso e a impossibilidade concreta de usufruí-lo plenamente. O estudante que ingressa na universidade, mas precisa conciliar trabalho precário, longas jornadas de deslocamento e privações materiais, vive uma cidadania fraturada, incompleta, onde o sonho da emancipação intelectual se choca com a urgência da sobrevivência.


Para discutir essa problemática, este artigo propõe um diálogo entre três autores fundamentais: Carolina Maria de Jesus, Milton Santos e Paulo Freire. A primeira, a partir da experiência da pobreza e do tempo mutilado; o segundo, por meio da crítica ao espaço desigual e às armadilhas da estrutura urbana; e o terceiro, pela defesa da educação como prática de liberdade e, portanto, como instrumento de reconstrução da cidadania plena.


Carolina Maria de Jesus e o tempo mutilado pela sobrevivência


Em Quarto de despejo (1960), Carolina Maria de Jesus oferece um testemunho pungente sobre o tempo negado aos pobres. Sua escrita, feita entre uma coleta e outra de papel nas ruas de São Paulo, revela a brutalidade de uma vida em que cada minuto é consumido pela necessidade de sobreviver. Não há tempo para a leitura, para o descanso ou para o sonho. Há apenas o agora o tempo do estômago vazio, da urgência de alimentar os filhos, do improviso cotidiano.


Ao registrar o cotidiano da favela do Canindé, Carolina desvela como a pobreza opera não apenas como privação material, mas também como privação temporal: o pobre não dispõe do tempo livre necessário à reflexão, ao estudo e à produção do conhecimento. A autora afirma: “O meu sonho era andar bem vestida, calçar sapatos e ter o que comer todos os dias. Mas o pobre não pode ter sonhos longos” (JESUS, 1960, p. 45). O tempo, nesse sentido, é um luxo constantemente roubado.


Essa mutilação do tempo persiste na experiência de inúmeros estudantes das universidades públicas brasileiras. Jovens que, para garantir sua sobrevivência e a de suas famílias, dividem seus dias entre o trabalho informal e as exigências acadêmicas. Assim como Carolina escrevia em meio ao lixo, esses estudantes escrevem suas teses e relatórios entre jornadas exaustivas, deslocamentos e privações. A universidade, idealizada como espaço de emancipação, transforma-se, para muitos, em um novo “ quarto de despejo” : o lugar onde se tenta existir apesar da fome e da exaustão.


Milton Santos: o espaço e as armadilhas da pobreza


Milton Santos, ao analisar o território brasileiro, demonstrou como o espaço é uma construção social marcada por desigualdades profundas. Em "A Natureza do Espaço" (1996), ele revela que a estrutura espacial das cidades reproduz e intensifica as assimetrias econômicas e sociais. No contexto da permanência universitária, essa análise é essencial: o estudante periférico enfrenta não apenas barreiras simbólicas, mas também barreiras espaciais e temporais.


O deslocamento entre casa, trabalho e universidade torna-se, muitas vezes, uma jornada de resistência. Horas perdidas em transportes públicos precários configuram uma nova forma de exclusão silenciosa. O estudante que gasta quatro ou cinco horas diárias em deslocamento perde o tempo que poderia dedicar ao estudo, à leitura ou ao descanso e, com isso, vê seu desempenho comprometido. O espaço urbano, fragmentado e desigual, converte-se em obstáculo à democratização real do ensino superior.


Milton Santos fala de “cidadanias mutiladas” para designar a condição daqueles que vivem nas margens da urbanidade plena, desprovidos de infraestrutura, transporte digno e acesso aos centros de decisão e cultura. No caso dos estudantes pobres, essa mutilação é dupla: espacial e temporal. A luta pela permanência, portanto, é também uma luta pelo direito ao espaço e ao tempo.


Paulo Freire: educação como prática de liberdade (ou exclusão)


Paulo Freire, em Pedagogia do Oprimido (1968), concebe a educação como prática de liberdade uma via pela qual o sujeito se reconhece como agente de sua própria história. A educação libertadora exige diálogo, reflexão crítica e transformação das condições de opressão. No entanto, quando as condições materiais de existência são negadas, essa prática de liberdade torna-se inviável.


Como pensar a universidade pública como instrumento de emancipação se o estudante não dispõe de tempo, alimentação e moradia adequados? A contradição entre o direito formal e a exclusão real expressa, mais uma vez, as “cidadanias mutiladas” . O estudante pobre é convidado a libertar-se pelo conhecimento, mas é mantido cativo pela estrutura que o oprime.


Para Freire, “ninguém liberta ninguém, ninguém se liberta sozinho: os homens se libertam em comunhão” (FREIRE, 1987, p. 47). Essa comunhão, na universidade, só é possível quando há políticas públicas que garantam condições concretas de permanência bolsas, moradia, alimentação e transporte. Sem tais políticas, a educação deixa de ser libertadora e se torna instrumento de reprodução da desigualdade. A universidade corre o risco de transformar-se num espaço de exclusão simbólica, onde o direito à emancipação é reservado aos que já dispõem do privilégio do tempo e da segurança material.


Articulação dos três eixos


A experiência de Carolina Maria de Jesus, a análise espacial de Milton Santos e a pedagogia libertadora de Paulo Freire convergem para uma compreensão profunda da exclusão no ensino superior. Carolina revela o corpo cansado e o tempo roubado pela sobrevivência; Milton Santos explicita as armadilhas do espaço e da estrutura social; e Paulo Freire aponta para a necessidade de transformar a educação em prática concreta de libertação.


Essas três perspectivas permitem compreender que a permanência universitária é a síntese das lutas por tempo, espaço e dignidade. Sem tempo para estudar, sem espaço acessível para viver e sem condições materiais para resistir, o estudante pobre permanece à margem da promessa democrática da universidade pública. A exclusão, antes visível nas portas fechadas do vestibular, agora se oculta nos corredores do cotidiano universitário onde o estudante exausto tenta sobreviver entre trabalhos, deslocamentos e provas.


Conclusão ‒ O tempo que nos falta


O tempo é o verdadeiro marcador das desigualdades brasileiras. Enquanto alguns o desfrutam como capital investindo em estágios, intercâmbios e cultura outros o veem diluído na sobrevivência, roubado pelo trabalho e pela fome. O tempo que falta ao estudante pobre é o mesmo que falta à democracia brasileira.


Defender a permanência estudantil é defender a cidadania plena. É reconhecer que a universidade pública cumpre sua função social apenas quando oferece tempo, espaço e condições para que todos possam aprender, pensar e transformar. Políticas públicas de assistência estudantil, bolsas, moradias, restaurantes e transporte gratuito não são favores: são instrumentos de justiça social.


Sem tempo, o estudante pobre não tem futuro. E sem o futuro desses estudantes, a universidade perde sua alma deixa de ser prática de liberdade para tornar-se reflexo do “quarto de despejo” da exclusão social. A luta por tempo é, assim, a luta pela própria possibilidade de sonhar, aprender e existir plenamente.



Referências


FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. 17. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.

JESUS, Carolina Maria de. Quarto de despejo: diário de uma favelada. São Paulo: Ática, 1960.

SANTOS, Milton. A natureza do espaço: técnica e tempo, razão e emoção. São Paulo: Hucitec, 1996.

 
 
 

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