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O ESVAZIAMENTO POLÍTICO DA POLÍTICA

  • Foto do escritor: Cristiano de França
    Cristiano de França
  • 10 de out. de 2025
  • 5 min de leitura

Por Cristiano de França Lima (Coletivo Ação Ubuntu)



Com este ensaio pretendo demonstrar que a partir dos retrocessos e desmontes das políticas de inclusão social, em especial, no governo Bolsonaro, entre os anos de 2019 e 2022 , tomando expressão na captura do Estado pelos interesses da elite branca e capitalista, o esvaziamento político da política efetiva-se como o modus operandi da elite brasileira na formação do “pobre de direita” (SOUZA, 2024a).


A perda do sentido da política pode ser observado no desmantelamento das instituições democráticas ou no enfraquecimento do debate público, mas no cerne desse ensaio, refere-se à desqualificação e apagamento da questão social. Em outras palavras, é a percepção que a pobreza é um problema individual e não uma questão social que requer soluções estruturais. Vale ressaltar que questão social “tem a ver, exclusivamente, com a sociabilidade erguida sob o comando do capital” (NETTO, 2011, p. 159). Trata-se, portanto, do próprio desenvolvimento do capitalismo e de suas leis da acumulação do capital. É inerente à organização da sociedade, envolvendo as relações sociais e as desigualdades estabelecidas no interior desta.


Partindo de algumas obras do sociólogo brasileiro Jessé Souza, compreendendo o seu conceito de “pobre de direita”, defendo que o esvaziamento político da política é um produto de construções histórica e social que têm a finalidade de fragilizar a participação política ativa da classe dos humilhados. Esta, segundo o sociólogo, refere-se a parcela da população marginalizada e excluída pela elite brasileira, sendo frequentemente culpabilizada por sua própria situação (SOUZA, 2024b).


A formação do Estado brasileiro esteve, desde o início, associada à exclusão das camadas populares dos processos decisórios. Como argumenta Fausto (1994), a estrutura políticoadministrativa brasileira herdada do período colonial não fomentou uma cultura democrática, mas sim uma relação vertical e personalista entre o poder público e os cidadãos. Nesse contexto, a cidadania foi construída de maneira restrita e desigual, com uma clara divisão entre as elites políticas e econômicas e os segmentos populares.


Com a repressão política e o controle da informação consolidaram uma cultura de medo e afastamento da política entre os setores populares, aquele processo foi agravado durante a ditadura militar (1964-1985). Perdurando após a redemocratização, os efeitos desse período continuaram a se manifestar na forma de desconfiança generalizada em relação às instituições e baixa participação política ativa (AVRITZER, 2002).


Segundo Souza (2006), a cultura política brasileira é marcada por elementos patrimonialistas e clientelistas que dificultam a construção de uma cidadania crítica e participativa. Nas classes populares, a política é frequentemente percebida como um meio de obtenção de benefícios imediatos e individuais, em vez de um espaço coletivo de transformação social. Essa lógica clientelista é reforçada por práticas eleitorais que substituem o debate programático por trocas materiais, como favores ou promessas de empregos.


Mesmo no contexto de desconfiança generalizada ao Estado, supramencionado, houve um considerado aumento da organização popular nas cidades brasileiras, na década de 1980. Período este, marcado pelo contexto de redemocratização e mobilização social. A partir da minha realidade local, destaco a formação e atuação de associações de moradores que foram canais de expressão e luta coletivas por melhores condições de vida nas comunidades.


Não deixo de considerar que mesmo com essa revivescência da mobilização e organização popular, estas carregavam resquícios autoritários, por vezes, por parte das lideranças comunitárias. Como bem nos lembrava Paulo Freire (2011), trata-se de uma fase de trânsito.


“[s]endo a fase de trânsito o elo entre uma época que se esvaziava e uma nova que ia se consubstanciando, tinha algo de alongamento e algo de adentramento. De alongamento da velha sociedade que se esvaziada e que despejava nele querendo preservar-se. De adentramento na nova sociedade que anunciava e que, através dele, se engendrava na velha” (p. 66).

No escopo da ideia aqui tecida, o destaque é o aspecto politizador da organização popular, resultando na criação de vários coletivos, como referido, as associações de moradores. Em minha cidade, quase em todos os bairros havia associação. Fiz parte dessa mobilização, articulando e organizando uma associação, no bairro em que morei, contribuindo também na criação em outros bairros. Essas associações de moradores lograram mobilizar, em conjunto com outras organizações (sindicatos, partidos políticos etc.), a população para debates acerca do movimento em prol da Constituinte no Brasil. O efeito dessa mobilização, gerou uma forte participação de vários grupos, coletivos e comunidades, existentes na cidade, à atuarem na elaboração da Lei Orgânica da cidade. Havia, portanto, um ‘clima’ que anunciava o aspecto coletivo das ações, lutas e, em especial, das demandas da classe popular.


Contudo, com a forte implementação, no Brasil, das políticas neoliberais no final da década de 1980, houve um desmonte desse processo de organização popular. Com bem denota Gohn (2011), a falta de acesso a espaços de formação política informal, como movimentos sociais ou associações de bairro, contribui para o isolamento político dos indivíduos dessas classes, dificultando a construção de uma identidade coletiva e politicamente engajada.


A mídia tradicional, aliada à elite brasileira (esta denominada pelo sociólogo Jessé Souza de elite do atraso), desempenhou, e segue desempenhando, um papel central na manutenção do esvaziamento da política, ao reforçar estigmas sobre a política e os políticos e oferecer uma cobertura superficial e sensacionalista dos temas políticos (MIGUEL, 2003).


Abro parênteses para explicar que o termo "elite do atraso" refere-se a um grupo social que, apesar de ocupar posições de poder e privilégio, perpetua um conjunto de valores, práticas e mentalidades que contribuem para a manutenção da desigualdade e do atraso social no Brasil. Essa elite, segundo a teoria, não busca o desenvolvimento do país de forma abrangente, mas sim a manutenção de seus próprios privilégios, muitas vezes à custa do bem-estar da maioria da população (SOUZA, 2017).


Neste contexto, uma parcela da classe popular, designada por Souza (2024a) como “pobre de direita”, é moldada na perda do sentido da política e na desinformação.


Em suma, o (des)governo Bolsonaro, entre os anos de 2019 e 2022, representou o coroamento do fenômeno que aqui tratado por esvaziamento político da política, por ter promovido a simplificação da linguagem política, a ascensão de discursos populistas e a polarização ideológica. Este, portanto, gerou condições simbólicas e materiais para a perda do sentido da política, traduzindo esta à violência.


O esvaziamento político da política trata-se, em linhas gerais, de um projeto da elite brasileira, que promove a adesão, muitas vezes de forma inconsciente, dos mais pobres às ideias moralistas e conservadoras desta elite. Desta forma, os “pobres de direita” têm em sua formação a valorização excessiva do individualismo, o desrespeito à comunidade político-jurídica na qual a cidadania se constitui, a violência como atuação na esfera pública, entre outros aspectos.


Notas Bibliográficas:


AVRITZER, Leonardo. Democracia e as instituições políticas no Brasil pós-1988. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2002.

FAUSTO, B. História do Brasil. São Paulo: EdUSP, 1994.

FREIRE, Paulo. Educação como prática da liberdade. 14. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2011.

GOHN, M. G. Movimentos sociais e educação. São Paulo: Cortez, 2011.

MIGUEL, L. F. Cidadania e meios de comunicação: a mídia e a política no Brasil contemporâneo. São Paulo: Paulus, 2003.

NETTP. J. P. Capitalismo monopolista e Serviço Social. São Paulo: Cortez, 2011.

SOUZA, Jessé. O pobre de direita: a vingança dos bastardos. 6. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2024a.

SOUZA, Jessé. Brasil dos humilhados: uma denúncia da ideologia elitista. 6. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2024b.

SOUZA, Jessé. A Elite do Atraso: Da Escravidão à Lava Jato, São Paulo: Editora Leya, 2017.

SOUZA, Jessé. A construção social da subcidadania: para uma sociologia política da modernidade periférica. Belo Horizonte: UFMG, 2006.


 
 
 

1 comentário


Jhony Lima
Jhony Lima
14 de out. de 2025

Parabéns Prof. Cris ❤️

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