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Machado de Assis e o "Instinto de Nacionalidade": Entre a Literatura e a Construção de uma Identidade Brasileira

  • Foto do escritor: João Erivan
    João Erivan
  • 17 de set. de 2025
  • 2 min de leitura

Por João Lima (Membro do coletivo Ubuntu)



Quando, em 1873, Machado de Assis publicou o ensaio “Instinto de Nacionalidade”, ele já falava algo essencial: a literatura e a educação brasileira precisava encontrar sua própria voz, distinta dos modelos europeus que ainda a dominavam. Machado ofereceu uma reflexão sobre o que significa ter uma identidade cultural. Segundo ele, o “instinto de nacionalidade” já se manifestava nas obras de autores como Gonçalves Dias e Magalhães, entre outros autores, que buscaram inspiração nas tradições, cores e paisagens do Brasil. Mas Machado alertava: a independência literária e educacional não nasce de um dia para o outro, trata-se de um processo lento e coletivo decolonial, que exige maturidade, tempo e crítica sólida.


“A independência literária não se improvisa”, observa Machado, lembrando que a construção de uma literatura nacional é tarefa de gerações.

Esse ponto é fundamental. Machado não se contenta em celebrar o talento individual, ele reivindica também a necessidade de uma crítica literária rigorosa, capaz de educar o gosto, orientar escritores e fortalecer o campo cultural. Sem crítica, afirma ele, a literatura corre o risco de se perder em modismos ou repetir fórmulas estrangeiras.


Hoje, quase 150 anos depois, sua reflexão permanece atual, sendo resgatada por pedagogos (a) educadores comprometidos com a educação brasileira, Sob a lente da decolonialidade, o “instinto de nacionalidade” ganha novos contornos. Não se trata apenas de escrever sobre o Brasil, mas de descolonizar o imaginário, desconstruíndo antigos conceitos eurocêntricos, valorizando vozes historicamente silenciadas, "indígenas, negras, periféricas" que também constituem nossa identidade. Como lembra Walter Mignolo, “pensar decolonialmente é libertar-se das matrizes coloniais de poder que moldaram nossa cultura”.


Nesse sentido, a contribuição de Machado dialoga diretamente com a educação: formar leitores críticos e escritores conscientes significa abrir espaço para uma cultura plural, que reconheça saberes tradicionais, memórias populares e expressões não hegemônicas. A literatura, então, torna-se também um ato de justiça social, pois amplia as vozes que participam da narrativa nacional.


O desafio que Machado lançou em 1873 continua aberto: como transformar esse “instinto” em prática concreta? Como fazer da literatura (e da cultura em geral) um espaço de inclusão, reparação e diversidade?


Seja na crítica, na educação ou na criação artística, a resposta talvez esteja em nossa coragem de “soltar as amarras” coloniais e afirmar aquilo que é verdadeiramente nosso. Como Machado anteviu, a independência cultural não é um ponto de chegada, mas uma travessia. E nessa travessia, cabe a todos nós (escritores, leitores, professores, cidadãos) assumir o compromisso de cultivar uma cultura brasileira forte, plural e autêntica.



Referências:


ASSIS, Machado de. Instinto de Nacionalidade. In: Obra completa em quatro volumes. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994.

ASSIS, Machado de. Obra Crítica de Machado de Assis: Crítica Literária. Org. Sílvia Maria Azevedo. Campinas: Editora da Unicamp, 2008. CANDIDO, Antonio. Formação da Literatura Brasileira. 10. ed. Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul, 2006.


 
 
 

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