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Educação é coisa de gente

  • Foto do escritor: Cristiano de França
    Cristiano de França
  • 21 de jan. de 2024
  • 3 min de leitura

Atualizado: 13 de set. de 2025





Por Cristiano de França (Sociólogo e Educador Popular)


Tenho vindo, desde 2022, afirmando em palestras, aulas e cursos que, no Brasil, a educação não é levada a sério, é algo relegado a um tratamento político de qualquer jeito, sem o merecido cuidado. Isto não é de hoje e muito menos uma novidade. O descuido, o maltrato, o abandono à educação, em nosso país, é algo visível histórico e proposital. Mas infelizmente, por uma miopia de parte da população, não é tão visível como eu pensava.


Não pretendo, de forma alguma, estabelecer generalizações e conclusões fechadas e encerradas como verdades, mas sim, provocar reflexões e diálogos a partir de um ponto de vista. A educação para mim é algo sagrado, no sentido de sua fundamentação ontológica. A educação é algo primordialmente humano, é isto que, para mim, a torna sagrada. Neste sentido, deveria ser levada a sério por toda sociedade; por todos nós, humanos.


Nenhum outro ser vivo, no planeta terra, precisa criar e instituir escolas para aprender. Os animais, os vegetais, os minerais já nascem sabendo tudo que é necessário para serem o que vieram a ser. Diferente, nós, seres humanos, precisamos aprender a ser humano, a se comportar como tal. Este aprender é continuo em nossa vida. Este fato, por si mesmo, já demonstra o quanto a educação é central, fulcral para a nossa humanização. Como então, não ser algo que devemos cuidar, considerar com prioridade e todo esmero possível em sua realização?


Recentemente, tive que ir em algumas escolas municipais para tratar da matrícula de minha irmã. Nas idas e vindas em escolas para resolver a questão da matrícula dela, por ser uma pessoa que necessita de cuidados no processo educacional, pude observar os descuidos e maltratos do poder público (e também da sociedade) pelas escolas. Os estados físicos destas, em que entrei, me deixaram descrente que eram realmente escolas. Paredes sujas e mal pintadas, pisos com a assoalhos quebrados (possíveis causas de acidentes), com matos altos no que supostamente seria um jardim, cadeiras quebras etc. Um cenário que me levou a indagar como crianças e adolescentes poderiam "aprender" nestes ambientes, para mim, insalubres. Eram. de fato, lugar de gente?


O que também me causou espanto foi de não perceber indignação dos pais que ali chegavam para matricularem seus filhos e dos funcionários que passavam horas nestes ambientes de total descuido e, certo ponto, abandono. Confesso que ao ver este cenário nas escolas em que entrei, um sentimento de vergonha (certo ponto, de indignação) cresceu em mim. Vergonha de fazer parte desta sociedade míope e apática com algo tão importante para nós, humanos. Vergonha de ali ter que matricular minha irmã, oferecer para ela, um ambiente que em nada educa. Vergonha por saber que ali trabalham pessoas (gente), que ali querem “educar” (se é possível) crianças, jovens. Vergonha por testemunhar este descuido e maltrato com a educação.


Como desejamos que crianças e jovens gostem e se sintam bem em estarem em escolas que não são cuidadas, limpas, tratadas como lugares de gente? Que não tenham fisicamente beleza que nos tragam conforto, alegria, bem-estar, harmonia, humanidade? Como sentir orgulho de nelas estarem? Não acredito que gente goste do que é feio, sujo, abandonado. Por isto, precisamos nos comprometer em tratar pedagogicamente da miopia de parte da nossa sociedade, que aceita voluntariamente, sem criticidade, este descuido e maltrato por parte dos poderes públicos.


Aprendi, desde de sempre, principalmente pelos escritos de Paulo Freire, que educar pressupõe gostar de gente. Logo, a sociedade que abandona as escolas, que não cuida seriamente da educação, não gosta de gente. O que dizer do poder público? Será que quem, hoje, estão nos cargos públicos com a função de administrar politicamente as nossas cidades, nossos estados, nosso país, entram, visitam, frequentam as nossas escolas públicas? Ou, por não gostarem de gente, relegam a educação ao abandono, ao descuido, a algo sem importância?


E nós, cidadãos e cidadãs, como nos importamos com as escolas em que nossos filhos, sobrinhos, netos, nossa gente estudam? Como são tratados os funcionários e docentes nas escolas que nossos filhos estudam? Como estão as bibliotecas nestas escolas? De que forma as experiências educativas acontecem nestas escolas? Nos preocupamos com isto?


Somos gente. Somos responsáveis por educar gente.

 
 
 

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