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Corpos impolíticos e doentes é isto que o conservadorismo quer no Brasil

  • Foto do escritor: Cristiano de França
    Cristiano de França
  • 19 de jun. de 2024
  • 3 min de leitura

Atualizado: 22 de jun. de 2024



Por Cristiano de França (Sociólogo e Educador Popular)


As notícias diárias que nos chegam sobre a “política” em nosso país têm nos deixado ansiosos, preocupados com o rumo em que estamos sendo levados. Por vezes, tento não acompanhar, ouvir, tomar conhecimento dessas notícias para não adoecer a minha mente. Mas, não é possível não ficar atento. Porém, é preciso um esmero para não me deixar adoecer, deixar de sonhar, de acreditar, de ser humano com as barbaridades praticadas por alguns agentes do atual cenário político.


O fato de não querer tomar ciência das atrocidades desses agentes (não quero chamar de políticos, pois o que são e o que fazem, em nada tem relação com POLÍTICA), pode ser substrato para o que estes desejam: retirar corpos que eles consideram "impolíticos" dos espaços de decisão, de poder.


Ao acompanhar, em uma leitura histórica, a formação política de nossa nação, constataremos que eles (aqui entendam por homens brancos), que dominam o cenário político e econômico, se acham no e com poder de definir quais os corpos são políticos. Dessa forma, para eles, mulheres, negros, indígenas, crianças, LGPTQIA+ não são corpos políticos, mas "impolíticos". Estes corpos "impolíticos" não têm habilidades, competências, condições para participar da “democracia”. Diga-se de passagem, “Democracia” dentro dos padrões que aqueles (eles) definem. É por desejarem eliminar, expulsar ainda mais da “política” esses corpos "impolíticos" que, no cenário atual, estamos tendo que ir para as ruas, ocupar os espaços públicos, as redes sociais - estas são espaços importantes de difusão de informações. As fake news são transmitidas pelas redes sociais -, nos manifestando, protestando contra os projetos de leis (PLs) e as propostas de emendas constitucionais (PECs) que tratam de por em execução o plano de eliminar uma vez por toda os corpos "impolíticos".


O PL 1904/2024, conhecida por PL do aborto ou da gravidez na infância é sinal fulcral desse pensamento que as mulheres, desde crianças, são corpos "impolíticos". Não têm condições de decidir sobre seus próprios corpos. Necessitam que outros (homens) tomem para si a condução e o poder de decidir por elas.


Neste mesmo propósito, está em discussão o PEC 09/2023 que dar perdão às dívidas dos partidos políticos que não cumpriram a cota mínima de terem mulheres, negros e indígenas nos seus quadros nas eleições. Mulheres, negros e indígenas, corpos "impolíticos" não têm que como contribuir com o campo político, com a democracia… Logo, a nossa Constituição Cidadã deve perdoar os partidos…


Já não bastava o desejo implícito de fazer com que as meninas, vítimas de estupro, sejam penalizadas por praticarem aborto, caso engravidem, o nosso Parlamento conservador, machista, racista e antidemocrático, com o PEC 09/2024, quer tornar legal os adolescentes trabalharem a partir dos 14 anos de idade. Claro que na realidade isto já acontece, no interior de nossas cidades, mas tornar esta realidade legal, permitida por lei é um absurdo sem tamanho. É retrocesso. Quais adolescentes com 14 anos de idade irão legalmente serão contratados para trabalhar? Para que trabalho (em que condições) estes adolescentes de 14 anos serão contratados? Com certeza, não serão os filhos e/ou as filhas de quem compõe o Parlamento brasileiro que serão levados a trabalhar em uma realidade laboral tão exploradora como a nossa.


O corpo das crianças, adolescentes e jovens negros, pobres, da classe popular, para a elite dominante brasileira (cria do colonialismo), é "animalesco", comparado à mera máquina que deve ser apropriada para produção de lucro, no sistema capitalista.


Ocupar as ruas, as praças, os mais diversos espaços públicos, protestando, expressando nosso repúdio, nosso basta; resistindo, lutando, se organizando nas comunidades; criando grupos, coletivos de ação e estudo da realidade; resgatando e valorizando a cultura popular; apostando na educação e organização populares são formas de demarcar espaços e de afirmar que NOSSOS CORPOS SÃO POLÍTICOS.


Urge a necessidade de tornarmos os atos de repúdio que estamos vendo, participando, fortalecendo em nosso país, em movimentos permanentes de expressão e marco de nossos corpos políticos no rumo de nossa nação. Mas, façamos isto, sem nos permitir adoecermos, sem nos agredirmos mentalmente, sem deixarmos a ansiedade, angustia, depressão nos dominarem… Temos que ter consciência que é isto, nossos corpos também doentes, que eles também querem.



 
 
 

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