“A Revolução sem Quartel: a Geração Z entre o grito digital e o silêncio das instituições”
- Gabriel Gomes

- 20 de out. de 2025
- 3 min de leitura

A história sempre encontrou na juventude a centelha da transformação. Das barricadas de Paris em 1968 às primaveras árabes do século XXI, a inquietação juvenil funcionou como um termômetro moral das sociedades, sinalizando a saturação de um tempo e a emergência de outro. Hoje, no entanto, o cenário ganha contornos inéditos: a chamada Geração Z, filha do neoliberalismo tardio e nativa do universo digital, ergue-se não mais com panfletos impressos, mas com hashtags, lives e threads.
Segundo a reportagem da BBC/G1 (19/10/2025), jovens de Nepal, Madagascar e Marrocos vêm protagonizando levantes que derrubam governos e desafiam estruturas consolidadas. Mas o ponto nevrálgico da questão, e que deve interessar a nós, cientistas sociais, é outro: essas insurreições digitais são capazes de produzir transformações duradouras ou são apenas erupções emocionais de um mundo saturado de desigualdade e hiperconectividade?
O que assistimos é uma metamorfose no modo de fazer política. As redes sociais transformaram-se em arenas de visibilidade e poder simbólico, como diria Pierre Bourdieu. O like e o retweet tornaram-se formas de capital político instantâneo, gerando o que Zygmunt Bauman chamaria de “militância líquida”: intensa, mas efêmera; global, mas rarefeita. A mobilização digital amplifica, mas também dilui. Derruba governos, mas dificilmente ergue instituições.
Há, portanto, uma tensão entre potência e fragilidade. Potência, porque a Geração Z compreendeu que o poder, antes concentrado em praças e parlamentos, agora circula por cabos de fibra óptica e nuvens de dados. Fragilidade, porque a mesma lógica algorítmica que impulsiona a indignação também a consome, transformando causas políticas em tendências momentâneas. O capitalismo de plataforma absorve até a rebeldia: monetiza o protesto, estetiza a dor, transforma a revolta em conteúdo.
Em certo sentido, vivemos uma paradoxo da insurgência digital. Nunca foi tão fácil derrubar um líder, e nunca foi tão difícil mudar o sistema. A velocidade da informação suprime a lentidão da organização. A emoção do protesto suprime a racionalidade do projeto. A juventude, acostumada à linguagem da instantaneidade, enfrenta a política, que é, por essência, o campo da paciência histórica.
Se analisarmos pela lente de Antonio Gramsci, poderíamos dizer que essa geração luta para romper uma “crise de hegemonia”: a velha ordem não satisfaz, mas a nova ainda não se consolidou. Falta à Geração Z o que Gramsci chamaria de intelectual orgânico, uma liderança capaz de traduzir indignação em estrutura, desejo em programa, emoção em instituição.
Isso não diminui a relevância do fenômeno. Ao contrário: ele revela a falência moral de governos incapazes de dialogar com seus jovens e a crise de representação que assola democracias e regimes autoritários. Quando adolescentes derrubam gabinetes por meio de redes sociais, não é apenas a política que está em crise, é a própria forma de autoridade que está sendo reconfigurada.
Mas o perigo é real: sem mediação institucional, sem continuidade organizacional, a revolta pode se dissipar no ar rarefeito das trends. O sistema, resiliente, espera o ciclo da indignação passar. O resultado, como a matéria aponta, é o retorno do mesmo status quo com novo verniz.
O desafio posto à Geração Z, e por extensão, a toda sociedade civil, é monumental: transformar mobilização em política, velocidade em estratégia, rede em comunidade. Se a indignação nasce no algoritmo, a mudança precisa nascer na realidade concreta: nos sindicatos, nos centros estudantis, nas escolas, nas ruas e, sobretudo, nas urnas.
A geração que aprendeu a denunciar injustiças em vídeos de quinze segundos talvez precise agora aprender o ofício mais árduo da política: o da persistência. Só assim o grito digital poderá, um dia, ecoar como revolução social.




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