A Gramática da Exclusão: Racialidade como Filtro do Capital Cultural e Dispositivo de Subjetivação
- Gabriel Gomes

- 14 de set. de 2025
- 5 min de leitura
Atualizado: 17 de set. de 2025

Por GABRIEL GOMES LIMA (Membro coletivo Ubuntu)
Dominação que educa, racismo que instrui
A dominação no mundo contemporâneo não se ergue mais, predominantemente, por meio da força bruta. Ela se dissemina de forma silenciosa e eficaz por meio de dispositivos simbólicos que operam na ordem da legitimidade. A linguagem, o currículo escolar, o cânone filosófico, os critérios de mérito e reconhecimento — todos carregam o peso de um mundo que ensinou a naturalizar a desigualdade como justa e a racialidade como exceção.
Para quem, como eu, cresceu em um território periférico de um país marcado pela colonialidade estrutural e estudou em escolas onde a branquitude era o centro epistêmico e estético, o simples gesto de existir intelectualmente enquanto corpo negro já representa um desafio. O que a escola ensinava como universal, eu precisava reaprender como ideológico. O que era chamado de neutralidade, era, na verdade, supremacia.
Neste contexto, duas figuras do pensamento contemporâneo se tornam fundamentais: Pierre Bourdieu, com sua teoria do capital cultural e da violência simbólica, e Sueli Carneiro, com sua concepção de dispositivo da racialidade. Se o primeiro nos permite entender os mecanismos de reprodução da desigualdade simbólica, é a segunda quem racializa essa crítica e a radicaliza a partir da experiência negra. A articulação entre ambos revela não apenas o caráter estrutural do racismo, mas também sua função como filtro de valor e produtor de subjetividades subalternizadas.
A racialidade como tecnologia política e ontologia da exclusão
Sueli Carneiro nos convoca a romper com a visão liberal que reduz o racismo a uma "opinião" ou a "atitudes discriminatórias". Em sua tese seminal, A construção do outro como não-ser como fundamento do ser, ela retoma o conceito de dispositivo (Foucault) para pensar a racialidade como uma tecnologia política de diferenciação, exclusão e regulação da vida.
“A racialidade”, diz Carneiro, “não é um adjetivo do racismo. É a própria gramática que define quem pode ser sujeito e quem será condenado à condição de objeto.” Nesse sentido, a racialidade atua como filtro ontológico: ela define quem é humano, quem é reconhecido, quem é capaz de produzir conhecimento. O corpo negro, nesse regime, não é apenas excluído; ele é forjado como alteridade radical. Não se trata apenas de não pertencer ao cânone, mas de ser o seu avesso, seu outro necessário, seu fundo de exclusão.
Essa operação não ocorre em abstrato: ela se dá na escola, na linguagem, na mídia, na justiça, no hospital. A racialidade, como dispositivo, produz o sujeito branco como sujeito universal e o sujeito negro como desvio. Ela é, portanto, uma tecnologia de governo das existências.
Bourdieu: a violência simbólica como invisibilização da dominação
Pierre Bourdieu, por sua vez, oferece um instrumental teórico rigoroso para analisar como a dominação é reproduzida de forma não percebida. O conceito de capital cultural é central nessa crítica. Ao lado dos capitais econômico, social e simbólico, o capital cultural aparece como forma de poder que se manifesta em três estados: o incorporado (habitus), o objetivado (livros, obras, arte) e o institucionalizado (títulos escolares).
A escola, para Bourdieu, é o principal espaço de legitimação dessa distribuição desigual. Mas seu mecanismo de dominação é sofisticado: ela transforma privilégios de origem (classe) em mérito escolar. Assim, a desigualdade parece justa, e a violência simbólica é aceita como reconhecimento legítimo. Como diz o autor em O poder simbólico (1989): “A violência simbólica é aquela que se exerce com a cumplicidade dos dominados, na medida em que as estruturas mentais que permitem perceber essa violência como legítima são as mesmas que a tornam possível.”
O problema, contudo, é que Bourdieu, ainda que crítico, permanece majoritariamente cego à racialização dessas dinâmicas. A classe é o foco, mas a raça é o que estrutura o próprio campo de possibilidades sociais.
Entre capital e cor: a racialidade como filtro simbólico
É justamente nesse ponto que Sueli Carneiro desloca e aprofunda Bourdieu: ela demonstra que o capital cultural é racializado. Ou seja, um jovem negro da periferia, mesmo que conquiste diplomas, conhecimento e reconhecimento institucional, terá sua legitimidade constantemente posta em questão. O racismo opera como barreira invisível à conversão plena do capital em valor social reconhecido.
A título de ilustração situada: eu, Gabriel, estudante de uma universidade pública, pesquisador em Ciências Sociais, acúmulo um capital cultural institucionalizado — mas quantas vezes já não me perguntaram, em entrevistas de emprego, “como aprendi a falar tão bem”? Quantas vezes o sotaque, a pele ou o CEP foram lidos como marcas de inadequação simbólica, apesar de todos os certificados?
A racialidade, nesse sentido, não é apenas uma variável adicional. Ela é o próprio filtro que regula a distribuição de valor. Como Carneiro afirma: “A racialidade institui o branco como o universal humano e relega o negro à condição de não-ser.” (2005)
A violência simbólica racializada: o habitus negro e a norma branca
O habitus negro é construído, portanto, sob vigilância constante. Diferente da classe média branca, que se movimenta no mundo com o conforto do pertencimento tácito, o corpo negro é sempre examinado. Ele carrega o peso do estranhamento, da desconfiança, da dúvida. Como afirma Grada Kilomba: “o saber dito universal é um saber branco, masculino, europeu. Todo outro saber precisa antes pedir permissão para falar.”
Nesse ponto, Carneiro e Bourdieu se cruzam. Mas é Carneiro quem vai além: se Bourdieu denuncia a reprodução, Carneiro propõe a refundação. Para ela, não basta denunciar a exclusão. É preciso transformar os critérios de valor. A experiência negra deve deixar de ser objeto e tornar-se sujeito do conhecimento.
Reconfigurar o valor: a insurgência epistêmica negra
A resposta de Carneiro não é assimilacionista. Ela não busca “incluir” os negros nos saberes eurocentrados — mas construir uma outra gramática de reconhecimento. A experiência negra, longe de ser déficit, é potência epistemológica. Em diálogo com Lélia Gonzalez, ela propõe uma epistemologia amefricana, insurgente, crítica e situada.
Essa proposta tem implicações políticas radicais:
- Recentrar o corpo negro como produtor de sentido e não apenas resistência ao sentido alheio;
- Desnaturalizar a linguagem “culta” como única forma legítima de expressão racional;
- Reconhecer os saberes afro-diaspóricos como fontes legítimas de conhecimento.
Como diz Carneiro: “Não basta sermos incluídos nos saberes existentes. É preciso repensar a gramática do saber a partir de nossas experiências.” (2005)
Conclusão: da crítica à refundação – contra o racismo epistêmico, uma pedagogia da presença
Sueli Carneiro não apenas atualiza Bourdieu — ela o desloca, o desafia e o radicaliza. Ao racializar a crítica da dominação simbólica, ela denuncia que a desigualdade não se constrói apenas na classe, mas na intersecção entre classe, raça e território. O racismo, no Brasil, é o fundamento silencioso da norma. A branquitude é o universal não dito.
Para quem, como eu, vem da periferia de Abreu e Lima, ingressar na universidade é só o início do embate. A gramática da exclusão se reinscreve nos corredores acadêmicos, nas falas condescendentes, na ausência de referências negras nos currículos. É por isso que não basta ocupar os espaços. É preciso reconfigurar o próprio espaço simbólico.
O legado de Carneiro reside em sua recusa ao papel de vítima passiva da exclusão. Ela exige mais: que sejamos autores de novas epistemes, arquitetos de novas possibilidades. Uma pedagogia que não apenas denuncia a ausência, mas afirma a presença. Uma gramática que não pede permissão para existir — que inaugura outro modo de existência.
REFERÊNCIAS
BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. 10. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2009.
BOURDIEU, Pierre; PASSERON, Jean-Claude. A reprodução: elementos para uma teoria do sistema de ensino. Petrópolis: Vozes, 2014.
CARNEIRO, Sueli. A construção do outro como não-ser como fundamento do ser. 2005. Tese (Doutorado em Educação) – Universidade de São Paulo, São Paulo, 2005.
CARNEIRO, Sueli. Racismo, sexismo e desigualdade no Brasil. São Paulo: Selo Negro, 2011. GONZALEZ, Lélia. Por um feminismo afro-latino-americano. Rio de Janeiro: Zahar, 2020
HALL, Stuart. Identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro: DP&A, 2005. KILOMBA, Grada. Memórias da plantação: episódios de racismo cotidiano. Rio de Janeiro: Cobogó, 2019.




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