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A (DES)TEMPORALIZAÇÃO DO SER: pensando com Paulo Freire

  • Foto do escritor: Cristiano de França
    Cristiano de França
  • 6 de jan. de 2024
  • 7 min de leitura

Por Cristiano de França (Sociólogo e Educador Popular)

Desde meados de 2018, tenho insistido sobre a necessidade de estudar as obras de Paulo Freire com esmero e, principalmente, com uma exigência rigorosa metódica. Longe de mim fazer afirmações generalizadas, mas tenho percebido o quanto as palavras dele têm sido verbalizadas simploriamente, contrariando o que o próprio tratava sobre a importância da palavra para a leitura do mundo.

Particularmente, estando no lugar de professor, tive que fazer um exercício de autocrítica no tocante aos momentos que citei frases de Paulo Freire soltas e solicitei leituras superficiais, do/as estudantes, de textos e/ou parte de alguma obra do nosso Patrono da Educação Brasileira. Um equívoco que não pretendo ter mais em minha tarefa como educador e professor.

Na Pedagogia da Esperança, o próprio Freire nos alerta da “incontenção verbal” que revela “uma terrível ignorância do papel da linguagem na história”. É preciso saber o que estamos falando, do que estamos falando e como estamos falando. Temos que falar com responsabilidade, visto que o “palavreado irresponsável” gera consequências nos processos de libertação dos homens e das mulheres.

Foi com esta inspiração e inquietação que desenvolvi um curso sobre a Pedagogia do Oprimido, uma turma em 2018 e outra, em 2020. Foi uma experiência oportunizadora para revisitar, com a merecida atenção, esta obra, retomando muito mais de um ponto de vista corriqueiro pedagógico, mas mapeando a tríade filosófica, teórica e prática no pensamento paulofreireano. Desta forma, foi um exercício de escapar da leviandade e ligeireza de como, em destaque, aquela obra é lida. Eu e quem esteve no curso, nos permitimos com responsabilidade pensando a Pedagogia do Oprimido com Paulo Freire.

Com um olhar também cuidadoso, tenho observado com preocupação a forma como a educação vem sendo tratada e abordada. Outrossim, sem seriedade e profundidade. É assim que tenho apercebido em algumas instituições educacionais. Por isto, aludo a necessidade de retomarmos Paulo Freire, não como um deus da educação, mas como um ser do seu tempo histórico que em cada obra se reinventava como ser (inacabado) de relações com e no mundo.

Tenho sido provocado a pensar e repensar a realidade brasileira com Paulo Freire, não para de forma rasteira copiá-lo, mas para conformar a minha relação com e no mundo, dizendo a minha palavra com ética e responsabilidade; para aprender, com ele, a ser do meu tempo histórico, a compreender este tempo como possibilidades, como sonhos possíveis, um “vir a ser”.

Com estas palavras iniciais, ensaio algumas reflexões sobre o tempo atual e o ser histórico que este evoca, tendo como base o pensamento paulofreireano, mas sem me furtar de assumir o meu papel enquanto ser pensante e atuante.


Ser mais – o cuidado do ser


Paulo Freire foi um homem preocupado com a humanidade. Ele se dedicou a nos permanecer humanos e impedir a nossa desumanização. Podemos destacar, de forma geral, três valores no pensamento dele: o diálogo, a esperança e a humanização. Estes estão intrinsecamente ligados a relação íntima entre os homens, as mulheres e o mundo. Nesta relação, encontra-se assentada a essência humana. Ou seja, o ser sendo ser na relação com o mundo. Assim, vamos nos humanizando.

Como seres inacabados, a nossa humanização é uma vocação ontológica da qual não podemos refutar. Caso a neguemos, nos desumanizamos. Paulo Freire, em sua obra Pedagogia da Autonomia, nos esclarece que “O ser não é estar, por isso tem as condições de passar da consciência ingênua para crítica. Nesse sentido “[...] não estou no mundo, eu sou no mundo[…]”.

Logo, segundo Paulo Freire, nós, homens e mulheres, somos seres de relações (com o mundo), estamos, desta maneira, aberto/as à realidade. Somos seres de possibilidades, nosso destino não é um dado (algo determinado), mas algo que precisa ser feito e de cuja responsabilidade não podemos nos eximir.

Nós não estamos no mundo, nós somos no e com o mundo. O verbo estar, nesse sentido, seria a determinação a não assumir a nossa condição de ser, renegando a condição do ser mais e deixando a outrem ocupar o nosso próprio lugar no mundo. “Gosto de ser gente porque a História em que me faço com os outros e de cuja feitura tomo parte é um tempo de possibilidades e não de determinismo.”

A partir desta ideia chave paulofreireana, podemos destacar a relevância de nos reconhecermos como sujeitos da construção da nossa própria presença/existência no mundo. Esta construção não se faz no isolamento. A nossa presença (nossa existência) no mundo vai se fazendo na nossa integração no mundo. Ler, estudar, compreender Paulo Freire, nos implica, a nos questionarmos: como estamos construindo a nossa presença/existência no mundo? Para Paulo Freire existir ultrapassa viver por que é mais do que estar no mundo. Existir é uma tarefa individual, algo particular de nossas histórias pessoais, porém o existir só se realiza na relação com outros existires.

Na Educação como Prática da Liberdade, ele nos fala que “Existir é um conceito dinâmico. Implica uma dialogação eterna do homem com o homem. Do homem com o mundo. Do homem com o seu Criador.”

À vista disto, estamos aberto/as à uma pluralidade nas nossas relações, pluralidade na própria singularidade que somos. Paulo Freire demarca tão bem, na obra Educação como Prática da Liberdade, a diferença entre nós e os animais, estes são seres de contato, têm ações reflexas, enquanto nós, gente, homens e mulheres, temos ações reflexivas, por sermos de relações.

Paulo Freire, nas suas obras, nos deixa uma profunda mensagem de cuidado do ser. Este cuidado é de natureza eminentemente ética à medida que a invenção da existência constitui-se na formação de uma ética. Ética engendrada na vocação ontológica de todos os homens e de todas as mulheres, de ser mais; de se humanizar nos atos de criação, recriação e decisão, dominando as suas realidades. São nestes atos que todos nós vamos participando de nosso tempo histórico.

Participar de nosso tempo histórico, fazendo história e cultura, vamos superando a posição passiva de estar no mundo para uma postura de ser mais, assumindo sem medo a responsabilidade por nossa própria presença/existência no e com o mundo.


O tempo do ser mais contra a sua destemporalização


Segundo Paulo Freire, “O homem existe no tempo. Está dentro. Está fora. Herda. Incorpora. Modifica. Porque não está preso a um tempo reduzido a um hoje permanente que o esmaga, emerge dele. Banha-se nele. Temporaliza-se.”

Podemos, então, compreender que o tempo, nesta e em outras obras de Paulo Freire, é algo a ser transformado, modificado, reinventado, recriado para não cair na destemporalização. O tempo para ele é histórico, incompleto, modificável, passageiro. O tempo histórico é, dessa forma, um projeto (político) de transformação.

A destemporalização do ser implica, portanto, o congelamento do ser, a negação da capacidade humana de transcender, o nosso fechamento à apenas nossa condição biológica. Mesmo que possa nos parecer contraditório, há em nossa histórias, forças, energias, pessoas, projetos que buscam esta destemporalização do ser. É por isto, que o tempo do ser mais é uma tempo de luta, de resistência, é um tempo de esperançar.

A destemporalização do ser abre espaço para a desesperança – um alargamento do ontem no esmagamento do hoje e na diluição do futuro – consequentemente os homens e as mulheres são “tragicamente assustados, temendo a convivência autêntica e até duvidando de sua possibilidade.” A negação da temporalização do ser mais é a negação do próprio ser.

Paulo Freire expressa muito bem que na realização humana do ser histórico e social, o passado, o presente e o futuro “não são departamentos estanques, sua história, em função de suas mesmas criações vai se desenvolvendo em permanente devenir …” Logo, o ser sendo ser mais é ser aberto à uma realidade em movimento, pois o próprio ser sendo ser mais está sempre desestabilizando-a.

Neste sentido, o ontem, o hoje e o amanhã “não são como se fossem seções fechadas e intercomunicáveis do tempo, que ficassem petrificadas e nas quais estivéssemos enclausurado/as. Como já foi dito, Paulo Freire compreendia a história como possibilidade e não determinismo. O ontem, o hoje e o amanhã estão sempre em choque, em relação. Por isto, para Paulo Freire, precisamos “perceber as fortes contradições que se aprofundam com o choque entre valores emergentes, em busca de afirmação e de plenificação, e valores do ontem, em busca de preservação. É este choque entre um ontem esvaziando-se, mas querendo permanecer, e um amanhã por se consubstanciar, que caracteriza a fase de trânsito como um tempo anunciador.”

O tempo do ser mais, com seus temas próprios, solicita que nós, gente, homens e mulheres, usemos “cada vez mais funções intelectuais e cada vez menos funções puramente instintivas e emocionais.” O pensar ingênuo se agarra e se ajusta ao espaço garantido da acomodação, ao “hoje normalizado”, negando-se a temporalidade, negando-se a si mesmo.

Os apontamentos aqui feitos, leva-me à trazer ainda algumas palavras sobre o Esperançar, uma vez que, tenho expressado que o tempo do ser mais é um tempo do esperançar. Apesar que sobre esta categoria paulofreireano, Esperançar, pretendo dialogar em outro momento, visto que merece um tratamento aprofundado.

Contudo, o tempo do ser mais é também um tempo de denuncia e anuncio de algo. É tempo de criação, de transformação. É aqui que o Esperançar toma contornos de projeto de mundo. O esperançar é em si, conforme Paulo Freire, ato de criação, o Inédito-Viável. O inédito-Viável nos remete a uma alternativa que não está situada na esfera das certezas, mas no das possibilidades. É um projeto de mundo que vamos sonhando juntos, em nossas relações plurais com e no mundo. Tem, portanto, substrato na nossa capacidade de transcender como seres finitos, incompletos, históricos, sendo ser mais.

A concepção bancária de educação enfatiza a permanência em um ontem e em um hoje normalizados, congelados, a-históricos. Está a serviço da destemporalização do ser. Distintamente, a concepção problematizadora de educação gera mudança, movimento, é dinâmica em sua natureza. Está a serviço da temporalização do ser mais. Por isto mesmo, é concepção balizada no tempo do esperançar. _______________________________________________________

FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia:saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 2010.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da Esperança. Rio de Janeiro/São Paulo: Paz e Terra, 2016, p. 59.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia:saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 2010, p. 53.

FREIRE, Paulo. Educação como prática da liberdade. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2011, p. 57.



 
 
 

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